A Língua Nossa de Cada Dia

Corinthians, em 1970

 

Estou publicando no Diário artigos sobre português escritos por papai na Folha de S. Paulo. A digitalização está a cargo de minha caçula, Camila. Como o avô que não chegou a ver, e ao contrário do pai com seus dois dedos trôpegos procurando as letras, Camila usa o teclado com elegância e rapidez admiráveis.

O texto escolhido hoje é sobre os torcedores de futebol.

Em 1970, os corintianos éramos conhecidos como sofredores. Desde 1954 o Corinthians não ganhava um título. Nascido em 1956, eu jamais vira meu time ser campeão.

Eram outros tempos.

Não havia a profusão de competições de hoje.  Em São Paulo, o Campeonato Paulista era a única coisa que realmente importava. Era um torneio dificílimo. Ida e volta, pontos corridos. Fora os times da capital, o interior do estado tinha representantes fortes. Enfrentá-los na casa deles era uma parada sempre dura. Naqueles dias, a Ponte Preta, particularmente, era uma potência emergente, reflexo da pujança econômica de Campinas.

O Corinthians, em 1970, tinha um grande time, comandado por Rivellino. Mas tinha como adversários times como o Santos de Pelé e o Palmeiras de Ademir. Isso para não falar do São Paulo, que depois de anos de anemia futebolística por conta do foco na construção do Morumbi, contratara Gérson, o Canhotinha de Ouro. Com seu estilo clássico, sua liderança carismática e seus lançamentos precisos de 40 metros, Gérson levou o São Paulo ao título em 1970.

Foi sob esse cenário desanimador que papai escreveu em sua coluna, com sua prosa límpida e machadiana, as palavras reproduzidas abaixo.

Papai, de gravata, na redação da Folha nos anos 1970


O TORCEDOR DE FUTEBOL     

Por Emir Macedo Nogueira

 

À falta sufixos próprios, empregam-se em São Paulo, para designar os adeptos ou torcedores dos clubes de futebol, os chamados sufixos pátrios ou gentílicos, que a rigor indicam procedência ou naturalidade. Curioso é que a cada grande clube paulista corresponde um sufixo diferente: ano ficou para Corintians (corintiano, como paraibano); ense para o Palmeiras (palmeirense, como amazenense), ista para os Santos (santista, como paulista); e ino para o São Paulo (são-paulino, como bragantino). Com a Portuguesa ocorre outra curiosidade: normalmente seria português o adjetivo a ser empregado para designar seu torcedor, seu atleta etc. A crônica esportiva, entretanto, refugou esse termo (talvez por ter conotação muito grande com nacionalidade) e passou a empregar luso, lusa. De maneira que não estaria muito longe da verdade quem dissesse que em São Paulo o adjetivo luso só se emprega com o sentido de: relativo à Portuguesa (tanto à de Desportos quanto a Santista)…

Quanto aos demais times, ora a eles se aplica um daqueles sufixos, ora outra. Há casos de hesitação: em relação à Ponte  Preta, novo “grande” do futebol paulista, usa-se ponte-pretano ou ponte-pretense. Quando há problemas de eufonia, surgem recursos engraçados: a torcida do Guarani não é guaraniense, mas bugrina (é essa palavra que se aplica também ao time, aos jogadores etc).

No Rio, além do emprego dos sufixos, costuma-se também designar o torcedor pelo próprio nome do time. Assim é que o carioca é flamengo (ou flamenguista: entusiasta do Flamengo); vasco (ou vascaíno: adepto do Vasco da Gama) etc. Em São Paulo não há esse hábito.

As cores do uniforme também servem para identificar o clube e tudo quanto se relaciona com ele. Temos entre nós os alvinegros (Corinthians, Santos, Ponte Preta, entre outros), os alviverdes (Palmeiras), os rubroverdes (Portuguesa de Desportos). Observe-se que todos esses compostos se escrevem como se fossem uma só palavra, sem hífen, sem nada; o hífen aparece, por exemplo, em auri-rubro, para manter fidelidade à pronúncia sem necessidade de dobrar o r. O novo campeão paulista, o São Paulo FC, é apenas o tricolor, sem indicação das cores de seu uniforme. Na grafia do nome, que indica o seu torcedor, notam-se dúvidas entre são-paulino, sampaulino e sãopaulino. A primeira (são-paulino) é a forma correta de acordo com as normas que se obedecem na grafia dos gentílicos derivados de topônimos compostos (mato-grossense, norte-americano, rio-pardense).

Apesar de esporte eminentemente nacional, o futebol não se livrou ainda de forte influência inglesa. O FC (Futebol Clube) que se propõe a numerosos nomes é vestígio da sintaxe britânica: em português deveria ser Clube de Futebol. O mesmo ocorre com EC (Esporte Clube) que só poderia ser Clube de Esportes ou Clube Esportivo. Aportuguesaram-se em suma as palavras, mas não se aportuguesou a construção.

Para terminar, registre-se que o nome do mais popular clube paulista, o Corintians, ainda não se submeteu às regras ortográficas vigentes. Conserva aquele ans em desacordo com os preceitos ortográficos. O correto deveria ser Coríntiãs, forma que ninguém tem coragem de usar. Nem este colunista, corintiano da velha guarda, frustrado agora pela décima sexta vez consecutiva.

 


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