A lastimável passagem de Fabio Barbosa pela Abril

Não elevou a Abril, e se rebaixou
Não elevou a Abril, e se rebaixou

 

Quanto a cúpula da Abril está desconectada da realidade se pode ver na nota da empresa que anunciou a saída do presidente executivo Fabio Barbosa.

Ali está dito, em tom triunfal, que Fabio Barbosa recebeu e aceitou um convite para participar das reuniões de pauta da Veja.

Vou repetir: um convite para participar das reuniões de pauta da Veja.

É como se oferecessem assento a Barbosa na reunião semanal de Obama com seus principais homens.

Entre as pessoas que leram a nota, o convite provocou, compreensivelmente, gargalhadas.

Participei de várias reuniões de pauta da Veja em seus anos de ouro, na década de 1980.

Já ali, mesmo com a presença de jornalistas brilhantes como Guzzo e Elio Gaspari, elas eram enfadonhas, repetitivas. Os participantes contavam os minutos para se livrar e retornar à vida.

Isso quando se tratava da publicação mais importante do Brasil.

Agora, quando a revista agoniza na Era Digital e é objeto não de admiração mas de ódio por ter se convertido num panfleto mentiroso de ultradireita, você pode imaginar o valor de uma reunião de pauta.

Pois foi isso que ofereceram a Fabio Barbosa, em meio a longas linhas em que se tentava achar alguma contribuição dele à empresa.

Duas sílabas resumem a passagem de Fabio Barbosa pela Abril: na e da. Nada. Ele fez nada.

Barbosa fracassou miseravelmente em pelo menos mitigar o declínio da Abril e suas revistas.

A Abril que ele deixa é muito menor do que a Abril à qual ele chegou, há cinco anos, convidado por Roberto Civita.

Parte disso é culpa da mudança do mercado, que transformou revistas em produtos em extinção, é certo. Mas parte também é culpa da absoluta inépcia de Barbosa em contribuir de alguma forma para a Abril.

Ele nunca chegou a ser respeitado na cúpula da empresa. Sua maior obra, ouvi certa vez de um diretor de grandes serviços prestados à Abril, foi sugerir à lanchonete um preço redondo para o cafezinho da casa, uma vez que nunca havia troco.

Quando ele foi contratado, perguntei a um integrante do comitê executivo da Abril o que o levara para lá.

“Ele é especialista em planejamento tributário”, ouvi. “Agora que temos dado lucros altos, isso vai ser importante.”

Quer dizer: em outras palavras, Barbosa foi chamado para sonegar. Os altos lucros rapidamente desapareceriam, mas Barbosa não.

Sua biografia executiva ficou manchada pela passagem pela Abril. Ao fiasco nos números dos balanços se juntou a associação de seu nome a uma publicação que perdeu qualquer sentido de decência.

No universo dos custos, ele simplesmente ficou caro demais para a Abril. Muito sangue tem corrido na empresa, e muito sangue haverá de correr. O ajuste da Abril é infinitamente mais dramático que o ajuste da economia brasileira.

A última chance de Barbosa de mostrar utilidade veio depois da morte de Roberto Civita. A Veja, sem RC, retornaria à civilização depois de anos de barbárie?

Barbosa, supostamente, teria um espaço que jamais teve para exigir dignidade editorial.

Mas não.

Ficou, desta fase, uma frase que entraria instantaneamente para o anedotário abriliano.

“A Veja é o Charles Aznavour das revistas”, disse ele a executivos, repetindo uma sentença que ouvira do diretor de redação da Veja, Eurípides Alcântara. “Sempre teremos nossos fãs.”

Aznavour entrou na conversa quando Barbosa disse para Eurípides, depois de ver uma pesquisa, que os leitores da revista pertencem, na maioria, à Terceira Idade.

Jovens não lêem a Veja. Não sabem o que é. É a morte para qualquer publicação.

Mas Barbosa não estará na casa quando a morte da Veja vier.

O máximo a que ele pode aspirar, agora, é participar da última reunião de pauta.

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