A jornalista que teve de esconder o cabelo crespo para tirar passaporte

Lília
Lília

 

A história de duas mulheres que não conseguiram tirar as fotografias para o passaporte é um exemplo do preço que negros pagam ao assumir seus cabelos crespos.

Em julho a jornalista baiana Lília de Souza, de 34 anos e com cabelos estilo black power, foi a uma repartição da Polícia Federal em Salvador para renovar o passaporte. Ela queria fotografar com os cabelos soltos, mas como o sistema da PF não aceitou a foto foi orientada pela funcionária a prender o cabelo com um elástico.

A atriz e promoter Mônica Assis passou pelo mesmo problema em um posto da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Depois de três tentativas de tirar a foto do documento ostentando seu penteado “black”, ela teve como única alternativa prender os cabelos.

Segundo a Polícia Federal, o sistema é informatizado e  “exige que a foto preencha requisitos mínimos para subsidiar a identificação dos viajantes.”

“O sistema pode reprovar uma foto capturada por inúmeras razões, o que exige uma nova fotografia. Esse procedimento tem que ser refeito em diversas situações, tais como: cabelo solto, cabelo na frente dos olhos, cabelo muito volumoso, olho fechado, adornos diversos, ombros ou orelhas que não estejam visíveis, fotos desfocadas, dentre outros”, explica a nota publicada pela Divisão de Comunicação Social da PF a respeito do caso ocorrido na Bahia.

Se Lília e Mônica tivessem saído de casa com os cabelos bem alisados ou então ancorados por grampos e presos para trás não teriam problemas ao tirar o documento.

As duas, porém, abraçaram os cabelos crespos e as muitas possibilidades de penteados que eles oferecem, tendência que vem aumentando. Hoje é cada vez mais comum ver dreadlocks, tranças ou black powers em cabeças de pessoas que não sejam artistas, esportistas, músicos ou ligados à moda.

 

passaporte

 

Há quem chame esse movimento de “ativismo de cabelo”, embora provavelmente a maioria dos que assumem seus crespos fazem por motivações estéticas. Mas em uma sociedade em que sucessos da música popular caluniam o cabelo dos negros e o apresentador Faustão chamou uma dançarina de “cabelo de vassoura de bruxa”, manter um penteado na contramão da estética eurocêntrica é sim uma forma de resistência.

Como a da menina Júlia Belmont, de 10 anos, cujo vídeo dizendo por que se recusa a alisar o cabelo virou hit na web. A desenvoltura e o humor de Júlia vão fazer bem à autoestima de outras meninas que não nasceram com os cabelos lisos e esvoaçantes.

Ela se mostra bem segura e convicta da beleza dos seus cachos, mas ainda não tem noção do tamanho das barreiras que precisará superar se quiser continuar usando os cabelos crespos. Como as enfrentadas por Lília e Mônica ao solicitar um simples documento.

 

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