A intolerância que cresce no Brasil a a semente do horror genocida na África. Por Wilson Ramos Filho, de Kigali (Rwanda)

Mulher ataca caravana de Lula com pedras

A temporada dos facões.

Como pudemos, os humanos, cometer tantas atrocidades? O mais famoso “genocídio” como “solução final” foi o dos judeus. As duas expressões entre aspas, contudo, datavam de duas décadas. Foram criadas para explicar ou para tentar justificar o assassinato de 1,4 milhão de armênios. Turcos e Kurdos, como cães raivosos, resolveram exterminar a marteladas aquela gente que acreditava no deus errado, na primeira década do século XX, mais ou menos na época em que o alemão Max Weber, pensando na Europa, escrevia que “quando a burocracia resolve se sobrepor à política, a ditadura é inevitável”. E funcionários públicos, quando podem ou quando não são controlados, sabem ser perversos. Lá, quando os primeiros armênios começaram a ser alvo de violência e de assassinatos, o Judiciário foi leniente, não puniu os criminosos. Essa seletividade Judiciária foi prontamente compreendida pelos que viam no extermínio dos cristãos de origem armenia a “solução final”. O assassinato em massa, com o fim de aniquilar, passou a ser denominado de “genocídio”.

Estive no museu do genocídio em Yerevan, capital da Armênia e no memorial em Kigali, capital de Rwanda. A pergunta se repete: como seres humanos puderam praticar tanta maldade e de forma tão intensa?

A resposta daria um livro. Aqui lanço apenas alguns elementos que nos permitem pensar nas origens das desumanidades.

Em 1990 os revoltosos estavam no poder em Uganda. Parte do exército revolucionário do ugandense NRA, liderados por Paul KAGAME, formado por Tutsis no exílio, constituiu a Frente Patriótica de Rwanda para, com apoio internacional, negociar o retorno de mais de um milhão de Tutsis que estavam no exílio em Uganda, Tanzânia, Congo e Burundi. O governo de Rwanda resiste. O presidente deste país chega a declarar que não cabem dois povos tão diferentes no mesmo território.
A mídia internacional compra a ideia de que havia um “conflito intertribal”.

Relembre-se que a divisão entre “hutus” e “tutsis” tinha sido uma invenção dos colonizadores belgas, no final dos anos 20, ao classificar todos os que tinham 10 vacas ou mais como “tutsis” e os demais (85% da população) como “hutus”, condenando seus descendentes a tal denominação discriminatória por critérios exclusivamente econômicos. Em 1932 instituem a “carteira de identidade” com a identificação censitária. Os belgas precisavam de uma “elite local” para manter sua dominação colonial. A coisa funcionou, fundada na repressão da maioria, até o final dos anos 50. A morte do Rei de Rwanda (Rudahigwa) e a onda descolonizadora que varria a África aceleraram a independência. Os tutsis, que então ocupavam a totalidade dos cargos públicos, inclusive no Judiciário, queriam uma transição rápida, mantendo seus privilégios. Os hutus vislumbraram a possibilidade de democratizar o país, propondo uma transição negociada, para a república, com eleições gerais. A elite resistiu e se deu uma revolução social. Milhares de tutsis foram mortos, muitos dos mais ricos se exilaram. Os hutus chegaram ao poder em 1962 e estabeleceram um sistema de cotas para participação nos cargos públicos. Minoria (14%) os tutsis perderam o monopólio do privilégio no acesso aos cargos da administração pública.

Durante as três décadas seguintes as tensões só aumentaram. Houve conflitos e mais tutsis emigraram. A nova elite, hutu, encastelada nas funções públicas, dominando o Judiciário, desenvolveu um ódio latente contra a minoria. A invenção dos belgas mostrava suas consequências.

No início dos anos 90 a Frente Patriótica, vindo de Uganda, fortemente armada, avança em direção à capital. França e Bélgica apoiam o governo apesar de todas as atrocidades comprovadamente praticadas. A ONU envia uma “missão de paz”. Uma centena de ONGs atua no país.

Iniciam-se negociações entre os revoltosos e o governo na cidade de Arusha, Tanzânia. Mas o governo, as elites, os meios de comunicação não estavam dispostos a ceder. Tinham o apoio da Europa e contavam com a simpatia da ONU. Entrementes, o governo do General Juvénal Habyarimana (que, por um Golpe de Estado em 1973 havia deposto Grégoire Kayibanda, no governo desde a independência) facilitava a criação de uma milícia armada, hutu, composta de jovens dispostos a tudo. Surge a odiosa “Interahamwe” que começa a mapear tutsis na capital e nas principais cidadezinhas do centro sul do país, em aparente processo de intimidação e humilhação. Era só aparência.

Os meios de comunicação se encarregaram do restante. A Rádio e Televisão Livre das Mil Colinas (apelido do país) sistematicamente difunde o ódio, bem como uma dezena de jornais subsidiados pelo governo. No começo, diziam que os hutus deveriam se preparar para se proteger contra os tutsis; depois, começaram o processo de “desumanização” dos tutsis, referidos como “baratas” a serem exterminadas. Muitas pessoas de bem, sem perceber, foram introjetando um ódio irracional, incorporando em seus cotidianos piadinhas discriminatórias e expressões depreciadoras a respeito dos tutsis. A propaganda fascista, que não se assumia como tal, foi contaminando, tornando fascistas, amplos setores sociais. Muitos tornaram-se fascistas sem perceber, odiando, repetindo o que ouviam no rádio, assistiam na TV e liam nos jornais. De sua parte, Habyarimana compra da França milhões de dólares em armamentos no final de 1993. Tudo isso durante o processo de negociação entre o governo e a Frente Patriótica que, em teoria, conduziria a um “governo de transição”. Mais uma vez a imprensa internacional come com farinha a balela dos “conflitos étnicos”, intertribais.

Em janeiro de 1994 a ONU recebe informações de que quase dois mil milicianos da Interahamwe estavam sendo treinados pelo exército. Boatos sugerem que especialistas franceses e belgas, de extrema direita, participariam do treinamento. Falava-se em planos de extermínio massivo, de 1000 tutsis a cada 20 minutos, mas as pessoas não acreditavam. Exagero, teoria da conspiração, imaginavam. Pouco a pouco, todavia, a ideia da “solução final” que acabaria com os “problemas” causados pelas “baratas” ia sendo naturalizada. Hutus moderados, famílias compostas por matrimônios mistos e milhares de tutsis assustados começam a migrar em direção às fronteiras, vez que impedidos de transitar em direção ao norte onde permaneciam estacionadas as tropas da Frente Patriótica.

Um premonitório artigo de jornal, no final de março de 1994 menciona riscos para o presidente. No dia 6 de abril, há 24 anos, preparando-se para aterrisar, é abatido o avião em que viajavam Juvénal Habyarimana e o presidente de Burundi, Cyrien Ntaryamira. Era a senha para começar a matança. O avião caiu às 20h23. Às 21:15 as principais rodovias foram bloqueadas e as casas dos Tutsis (previamente cadastradas pela Interahamwe) começaram a ser visitadas. Timidamente, no início. Todavia como nos conhecidos casos de meganhas acobertados pelos seus hierarcas, ou de juizecos “liberados” em suas sanhas persecutórias seletivas pelas “cortes superiores” (Millôr diria “agindo assim não podem ser “superiores”. Ou “supremo”, “excelso” ou sabujice equivalente), as matanças só se tornaram desabridas quando a ONU e as ONGs, desabaladas, partiram. Como mimadas crianças indiretamente autorizadas a peraltices, os Interahamwes partiram para “fazer o que tinha que ser feito”, ausentes de fiscalização, nas certezas de suas impunidades. Os correspondentes da imprensa internacional foram embora, a mídia local já não sofria condicionantes ou reparos e os tutsis, por serem tutsis (podiam ser judeus, armênios, ciganos, comunistas ou indígenas, qual a diferença?), estavam condenados. A opinião pública exigia dos patriotas o que haveria de se suceder.

A orelha de Paulo Frateschi, depois do ataque em Chapecó

A partir de então assistiu-se em Rwanda algo difícil até de relatar.

Em cada vila, cada povoado, os Interahamwe já tinham contatado funcionários públicos preparando-os para o que viria. As populações foram chamadas a se reunir nos onipresentes campos de futebol de pelada para receber instruções:
– cada homem ou adolescente deveria comparecer na manhã seguinte trazendo porretes (machetes de madeira com a ponta bojuda, pesados) e bem afiados os seus facões;
– Quem se negasse a colaborar ou fizesse corpo mole seria punido;
– Sabiam o que tinha que ser feito.
– As jornadas seriam das 8 da manhã às 17 horas, quando deveriam voltar para o churrasco feito com a carne das vacas expropriadas aos tutsis.

Todos sabiam o que seria feito. Desesperadas, apavoradas, as famílias dos tutsis tentavam fugir, refugiando-se em pântanos, florestas ou buscando abrigo nas igrejas.

Eram todos cristãos, falavam a mesma língua, batiam bola juntos nos finais de semana. A cada final de tarde dividiam algumas garrafas de Primus (cerveja) entre goles de uma fortemente alcoólica bebida artesanal feita de banana, jogavam sinuca, falavam de mulheres e de futebol, típicas “conversas de homens” naquelas bandas. Não havia nenhum traço físico a diferenciá-los, nem altura, cor da pele, sotaque, nada. Absolutamente nada. Mas os hutus sabiam quais vizinhos eram tutsis. Mas isso não tinha sido, de fato relevante até então. Muitos tinham frequentado escolas juntos, outros eram aparentados por conta dos frequentes casamentos de hutus com tutsis, auxiliavam-se mutuamente em mutirões para colheita, para o arado ou para a construção de algo para uso comunitário. Se seus antepassados, 60 anos antes, tinham sido diferenciados segundo critérios econômicos, de classe social, no início dos anos noventa essa diferenciação já não fazia sentido. Eram todos pobres, vivendo como podiam. Não era relevante antes. Tinha passado a ser.

Os meios de comunicação, agora já sem meias-palavras, comemoravam o que estava por vir e, por quase três meses, destacavam “notícias” acríticas sobre o genocídio. As notícias já não chocavam. As atrocidades tinham sido normalizadas. Para alguns serviam mesmo como estímulo, não estavam sozinhos. Produziu-se, por intermédio dos meios de comunicação o que em sociologia chamam de “efeito manada”.

Igrejas com centenas de apavorados tutsis, velhos, mulheres, crianças, adultos viram matadouros. Os vizinhos, que nos finais de semana anteriores compartilhavam bíblias e mitologias, agora chegavam distribuindo golpes de facão, a torto e a direito, entre gritos lancinantes, rogos e preces. Não os matavam rapidamente, evitavam o golpe de misericórdia. Preferiam deixá-los a sangrar, mãos decepadas, tendões cortados para que não conseguissem andar, cabeças rachadas. A cadela do fascismo está sempre no cio, dizia Bertolt Brecht. Na terra das mil colinas, durou uma eternidade.

Caso algum hutu covarde fosse encontrado, acoitado entre as “baratas” nas igrejas ou escondendo Tutsis, serviria de exemplo. Deveria matar ele mesmo seus filhos e a esposa tutsi. Fosse mulher a hutu assim descoberta, sem perdão, era estuprada variadas vezes na presença do marido hutu, enquanto assistia a morte de seus filhos. Milhares de crianças foram lançadas vivas dentro de fossas cerradas por pesadas pedras. Não há exagero nestes relatos. Leiam o livro Uma Temporada de Facões (de Jean Hatzfeld, em português), se tiverem estômago.

Muitos padres, pastores, religiosos cristãos hutus abriram as portas dos templos e edifícios eclesiásticos para a entrada dos matadores, com o compromisso de não fazerem muitos estragos no mobiliário. Outros, minoria, heróicos, preferiram morrer a colaborar.

Segundo relatos dos que participaram das matanças, no começo era mais difícil, depois foram se acostumando aos gritos, aos olhos vidrados, às lágrimas que escorriam em pálidos rostos de bocas silentes. Técnicas foram sendo aprimoradas para otimizar resultados. Jovens e crianças foram iniciadas, deste modo, tornaram-se homens participando do coletivo trabalho de extermínio. As mulheres hutus muitas vezes acompanhavam seus maridos. Ajudavam na localização dos fugitivos e, como prêmio, feito o serviço, os despojavam de seus pertences, de suas ensanguentadas roupas. Vasculhavam as virilhas das mortas em busca de algo de valor escondido em suas agora ressecadas entranhas. Aproveitavam para vigiar maridos evitando que seus garbosos varões sucumbissem às tentações carnais antes do abate, preservando-lhes as virtudes cristãs.

Na volta passavam nas casas dos mortos para a pilhagem. Sabiam onde estavam localizadas, vizinhos. Levavam as telhas de zinco, as portas, janelas, os reduzidos móveis e que mais tivesse algum valor de uso ou de troca. As criações eram compartilhadas em animados churrasco para onde os homens se dirigiam ao entardecer, para comentar seus feitos, gargantear valentias e deplorar, entre risos e insultos, inúteis pedidos de misericórdia. Os cães, milhares deles, acostumando-se à carne humana, dividiam com os abutres o abundante repasto.

Não seria justo com as vítimas aludir-se, sem mais, ao número global de mortos. Não foi um evento tópico. Esses assassinatos diferem daqueles praticados pelos EUA em Hiroshima e Nagazaki ao lançarem inúteis bombas atômicas, destruindo milhões de vidas ao mesmo tempo apesar de finda a guerra. Em Rwanda foram 15 semanas de mortandade, em todo o território controlado pelo governo, de execuções sumárias precedidas de tortura, de violações, de estupros. Foram 2.400 horas seguidas de terror sádico, de maldades, de desumanidade. Dez mil homens, mulheres, crianças e velhos foram mortos em média a cada dia, um depois do outro. Um dia pior que o outro, por mais de três meses.

As tropas da Frente Patriótica, chegadas as informações, resolveram interromper o cessar fogo e avançaram. A França, entre estupefata e dissimulada, leal ao governo, organiza a infame “operação turquesa” visando dar proteção aos genocidas, escoltando os Interahamwes, o exército ruandês e milhares de hutus que haviam participado das matanças. Milhares de outros hutus temendo serem confundidos com aqueles, os acompanharam até a fronteira com o Congo.

O pesadelo, todavia, não havia terminado. Os efeitos pós-traumáticos se perenizaram. Milhares de sobreviventes aleijados, amputados, seviciados, violados, sequelados seguiam ali, na condição de vítimas, ou de expectadores das atrocidades. Não houve uma guerra civil, houve um massacre. Não houve sequer guerra durante esses intermináveis 100 dias. Havia burocratas vaidosos e bandos armados de porretes ou facões, caçando pessoas nos pântanos, nas montanhas, nos bairros, nas igrejas, motivados pelo ódio construído pelos meios de comunicação. Eram fascistas, tornaram-se fascistas, embora a maioria nem soubesse o significado desta palavra. A reconstrução do país, passados esses 24 anos, ainda está em andamento. Já não há hutus ou tutsis, todos são ruandenses, mas esta é outra história.

Terminada a matança, dezenas de milhares de cães tiveram que ser, também eles, exterminados. Haviam, raivosos, se afeiçoado ao gosto da carne humana, viva ou putrefata, estivessem ou não no cio. Nesses casos, só matando, concluíram.

Muitos se penalizaram com os cachorrinhos.

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Wilson Ramos Filho, Xixo, doutor em Direito, presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora, professor na UFPR.

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Nota do autor:

Quando a Marielli foi executada comecei a escrever o texto abaixo. Continuei a escrever quando a Caravana do Lula foi atacada.
Nesta semana, quando uma falange fascista atacou violentamente um militante nas imediações do Acampamento Lula Livre em Curitiba, resolvi terminar o texto. Talvez consiga chamar a atenção para o que vem ocorrendo em nosso país.

 

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