A hora do Hino é foda. Quem não se arrepia está morto.

O PÊNALTI
Ainda sobre ontem e sobre essa antidiscussão do pênalti em Fred, que o árbitro japonês Yuichi Nishimura apontou. Muita gente que nunca foi a um estádio, que jamais jogou uma pelada e que só assiste uma partida inteira de futebol de quatro em quatro anos, quando é Copa do Mundo, está opinando e fazendo daquele lance um ato de conspiração, um fio condutor que une e explica toda a corrupção da Fifa e todas as questões morais brasileiras. Peraí, gente. O Fred cavou um pênalti com muita competência. Ponto. Não foi o primeiro, não será o último. Querem discutir a simulação no futebol, vambora. É antijogo ou faz parte da própria beleza do jogo? Como evitar injustiças sem perdermos a espontaneidade? Vamos debater. Mas sem essa de inventar um complô, de tecer uma longa e aborrecida tese vira lata que sempre termina com uma torta enfiada por nós mesmos em nossa cara.

Fred
Fred

Ou, mais absurdo ainda, de incriminar o japa. Isso, de novo, é desconhecimento. Vivi três anos no Japão e afirmo que isso é impensável. Uma autoridade japonesa sendo desonesta diante de 3 bilhões de pessoas e envergonhando a si mesma, a sua família e ao seu país? É caso que nem um haraquiri expurgaria. Então, caiamos na real: foi um lance corriqueiro, centroavante safo, efetivamente tocado dentro da área, que se deixou tombar. Um lance que Fred interpretou como um Laurence Olivier. Tivesse feito a mesma coisa num momento Francisco Cuoco, teria tomado um amarelo. Simples assim. Ele arriscou e se deu bem. Segue o baile.

Claro que o divertidíssimo jornal argentino Olé iria capitalizar em cima disso. “Começaram roubando”, diz a manchete. Aos amigos argentinos: o tombamento de Fred não se compara, nem de perto, a “la mano de diós”, em 1986, nem, muito menos, aos 6 a 0 contra o Peru, em 1978. Então vamos com calma, hermanos. (Mas entendo a corneta argentina. O que não entendo é o assunto ter crescido tanto nas mesas redondas por aqui. Deve ser falta de assunto.)

AS VAIAS E A PRESIDENTA

Sobre a vaia à Dilma, que eclodiu, por duas vezes, na forma de um coro insultoso, no Itaquerão. Trata-se de outra platitude num estádio de futebol no Brasil – o xingamento em forma de estribilho. É uma molecagem, de um lado. De outro, é um jeito bem brasileiro de mandar um recado. Alguém imaginou que Dilma seria aplaudida? Há algum motivo para aplaudi-la – ou mesmo para não vaiá-la? Blatter, o presidente da Fifa, e Dilma estavam acuados na tribuna de honra. Com cara de quem não fazia questão de ser visto ali. E eu acho apenas lógico que seja assim, por tudo que temos visto, lido e ouvido nos últimos tempo sobre a Copa, sobre a Fifa e sobre o Brasil. Hoje surgiram textos responsabilizando “uma elite branca, rica e cafona”, que estaria no Itaquerão e que teria sido a responsável pelos apupos. Sim, a nossa elite é branca, rica e cafona. E há mais uma pá de adjetivos desprovidos de elogios que poderíamos elencar – burra, egoísta, bulionista, feudal, arcaica, entre outros. Mas desconfio, nesse caso específico, que teve muita gente que reproduziu o coro em casa, mentalmente, e se sentiu representada pelos versinhos. Sim, às vezes a irreverência brasileira não é nada delicada. E daí? Alguma surpresa? Se caparmos aos cidadãos o direito de apupar os políticos – o que considero, a priori, por princípio, um gesto nobre e altamente politizado – teremos perdido metade das nossas possibilidades de manifestação democrática. Não precisa atirar um sapato, nem um tomate. Mas vaiar, na minha modesta opinião, é cortesia da casa

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Resta ainda o argumento de que Dilma “é mulher”, como um impeditivo para a vaia. Esse é um argumento de gênero que não consigo considerar. Não sou machista a esse ponto.

O mesmo raciocínio vale para a vaia à seleção da Croácia, quando entrou em campo e em alguns momentos em que teve a posse de bola durante a partida: isso é torcer, gente. É assim que se comportam, de modo civilizado, 60 000 torcedores num estádio de futebol. Um estádio não pressupõe missa, nem velório, nem chazinho na Academia Brasileira de Letras, nem cerimônia no Itaramaty. Aplaudir e apupar, apoiar o próprio time e tirar o apoio debaixo dos pés da equipe adversária é coisa corriqueira, e, mais do que isso, desejável, numa arena. Depois sai todo mundo junto e vai beber e dar risada abraçado. Como, de fato, aconteceu. Isso faz parte da beleza do futebol. E da beleza de ser brasileiro.

O HINO

A hora do Hino tem sido foda. Cresci nos anos 70, desfilando em uniforme de colégio, junto com tanques de guerra e fuzis, todo santo dia 7 de setembro. E cresci numa casa de oposição, de resistência democrática – uma casa de esquerda. Então qualquer símbolo pátrio não remetia à pátria mas, sim, à ditadura. O governo militar queria ser confundido com o país e nós, ainda que de modo avesso, meio que tomávamos mesmo uma coisa pela outra. Cantar o Hino era capitular ao jugo dos milicos. Tanto quanto hastear a bandeira ou simplesmente gostar do Brasil. A minha geração só foi gostar de novo do verde amarelo, sem culpa, na Copa de 82. Ali passamos a admitir com orgulho nossa brasilidade.

Mas nunca vi nem ouvi o hino ser cantado do jeito como jogadores e torcedores estão fazendo agora. Milhares de vozes à capela, urradas a plenos pulmões. Isso é um fato relevante e tem implicações profundas. Mas fiquemos só no seu efeito mais epidérmico – o Hino tem sido um momento arrepiante e um combustível para os jogadores. Até estrangeiros tem tido goosebumps. Veja essa matéria da Business Insider.  Nada poderia estimular mais àqueles que estão prestes a entrar em campo. E esses meninos estão querendo muito essa Copa. Isso, no esporte de alto nível, faz toda a diferença – entre supercraques, ganha quem quiser mais, quem estiver disposto a dar mais, quem estiver com a cabeça melhor.

Estou sentindo um clima, nesse grupo, muito parecido com o de 1994. Esses garotos, apesar de muito jovens – Neymar tem só 22 anos! – estão muito focados e maduros em relação ao que querem. Eles já são ídolos, já são ricos, já jogam na Europa, já estrelam comerciais, já são famosos no mundo todo. O que eles querem agora é uma coisa só: ser campeões mundiais na Copa que estão jogando em casa, diante das famílias e dos amigos que deixaram para trás. Isso fica muito claro na hora do Hino: Julio Cesar chorando, Tiago Silva com os olhos marejados, desde o vestiário, gritando com o time, Neymar e Marcelo num transe pessoal, David Luiz com cara de gladiador, pronto para sair dali e dar a vida pela jaqueta amarela. É assim que se ganha uma Copa.

Nem sombra daqueles garotos propaganda de 1998, embevecidos com o fato de terem enricado e colocado “um apartamento no pulso” – mesma geração que em 2006 terminaria mais preocupada em arrumar o meião do que em marcar o adversário. Nem sombra daquele saco de gatos de 1990, que ficaram discutindo o bicho e brigando entre si e com a comissão técnica até Maradona e Caniggia porem fim à nossa miséria. Estou, de verdade, levando muita fé.

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A hora do Hino é foda. Quem não se arrepia está morto

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