A guerra entre CIA e FBI numa série sobre a política intervencionista assassina dos EUA. Por Tiago Barbosa

A recente descoberta de um memorando da CIA segundo o qual a cúpula do governo militar ditatorial brasileiro autorizou, controlou e praticou assassinatos de opositores durante o regime acrescentou uma dupla sensação de perplexidade à história política do país.

A revelação fustiga, de imediato, a tese encampada até por veículos de imprensa nacionais sobre a “brandura” do golpe aplicado pelas forças armadas em comparação a manobras semelhantes em vizinhos latino-americanos e obriga historiadores a revisitar o período para dimensionar a extensão das atrocidades cometidas em defesa da tirania.

Espanta de forma semelhante o nível de envolvimento do governo estrangeiro no conhecimento e endosso aos crimes humanitários a ponto de monitorar ações dessa envergadura e escondê-las sob sigilo para celebrar êxitos na política externa. As décadas de invisibilidade até emergir ao público mostram como logrou sucesso o trabalho de bastidores operado pela agência de inteligência norte-americana, a quem são invariavelmente atribuídos desmontes e sabotagens em governos na zona de interesse dos Estados Unidos.

A onipresença e as ramificações da atuação da CIA – sobretudo na espionagem preventiva a atentados terroristas – ocupam o centro da trama da minissérie The looming tower (Hulu, 2018). Mas no extremo oposto ao triunfo. Inspirado em livro homônimo sobre a investigação real do Senado em torno do 11 de Setembro, o drama televisivo mostra como a central de inteligência e o FBI bateram cabeça e falharam em impedir o ataque da Al Qaeda, de Osama Bin Laden, em solo norte-americano. O décimo e último capítulo foi disponibilizado no Brasil nesta sexta-feira no catálogo da Amazon Prime Video, exibidora da produção no país.

A partir de depoimentos prestados à comissão parlamentar, a minissérie desembrulha os desencontros de informação entre as duas forças investigativas e expõe como a política antiterrorismo foi dragada por sentimentos pessoais, como inveja e vaidade, e microdisputas de poder em torno de cargos e benesses públicas.

O desfecho conhecido – o ataque suicida às Torres Gêmeas e ao Pentágono – obrigou os criadores a valorizar o encadeamento de acontecimentos e as falhas na segurança na tentativa de transmitir a agonia de uma tragédia anunciada, mas nunca impedida.

O roteiro é bem-sucedido em alternar os passos dos terroristas com os percalços dos investigadores. À formação e aplicação do exército de Bin Laden, são contrapostos os erros e as omissões das forças de segurança. De um lado, um mundo obediente e metódico. Do outro, uma bagunça de egos marcada por sonegação de informações, menosprezo de pistas, divergências ideológicas e de procedimentos.

A desorganização americana narrada na trama é fruto do choque de dois núcleos. A equipe da CIA responde pela Estação Alec, célula criada para mapear as ações de Bin Laden, comandada por Martin Schmidt (interpretado por Peter Sarsgaard) e a pupila Diane Marsh (compilação de personagens reais vivida por Wrenn Schmidt). A unidade de contraterrorismo do FBI é chefiada por John O’Neil (com atuação marcante de Jeff Daniels no papel de um personagem real) e integrada por nomes como Ali Soufan (Tahar Rahim) e Robert Chesney (Bill Camp).

A CIA é nitidamente pintada como o patinho feio da história criada pelo produtor Dan Futterman (de Capote), pelo produtor-executivo Alex Gibney (vencedor do Oscar de Documentário em 2007) e pelo escritor Lawrence Wright (autor do livro de inspiração para a minissérie). E o drama aguça essa percepção de duas formas: ao listar os claros equívocos no tratamento das investigações, submetidas ao bel-prazer das chefias, e minimizar a abordagem da vida pessoal dos funcionários da agência.

No campo oposto, a particularidade dos personagens é explorada em subtramas capazes de expandir o tema central da minissérie e dialogar com a realidade atual do país.

A abordagem do papel de Ali Soufan, agente do FBI nascido no Líbano, ilustra o dilema de muçulmanos de conciliar valores pessoais e religiosos com o modo de vida norte-americano e sob a desconfiança tanto da nova pátria como dos conterrâneos. O lado negativo fica por conta da visão reducionista dos árabes da Al Qaeda, retratados em parte como seres monossilábicos, manipulados e deslumbrados com a cultura do ocidente.

A complexidade psicológica do personagem de Jeff Daniels flerta com os anti-heróis da história recente da televisão e escoa forte crítica política contra a figura da autoridade norte-americana, simbolizada nos níveis de chefia até a presidência.

O policial O’Neil é um desterrado da própria vida: subvaloriza o lar e a família e usa o trabalho como pretexto para manter, sob culpa religiosa, dois outros relacionamentos amorosos. Mas a volúpia sexual parece não eximi-lo da eficiência no FBI. Ao contrário do presidente da época, Bill Clinton, relapso com a política de segurança em meio ao escândalo do sexo oral na Casa Branca, e do atual presidente Donald Trump, obrigado a explicar por que comprou o silêncio de uma prostituta enquanto ataca o FBI por investigá-lo quanto à interferência da Rússia nas eleições do país.

E sobra também para a mandachuva do governo George W. Bush, Condolezza Rice, inquirida quanto à responsabilidade nos atentados.

A minissérie faz uma reconstituição dramática eficaz, informativa (ao utilizar dados e depoimentos verdadeiros) e inconveniente de um desequilíbrio norte-americano responsável pela perda de milhares de vidas no coração do país.

Carnificina impulsionada, sobretudo, por uma política intervencionista em outros países – do convulsionado Oriente Médio aos vizinhos da América Latina.

Desrespeito à soberania alheia fartamente demonstrado em violações políticas, invasões armadas e expedientes secretos de conivência assassina – como atesta o silêncio da CIA sobre a decisão de militares brasileiros de exterminar desafetos da ditadura.

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