A Guerra das Duas Franças

A legalização do casamento gay trouxe de volta um conflito antigo entre os franceses.

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Em 23 de abril, a França passou a ser o mais novo país europeu a legalizar o casamento homossexual. Mas, ao contrário do que aconteceu noutros países, esta medida, aprovada em nome da igualdade, suscitou uma forte hostilidade, violenta em alguns casos, de uma parte da opinião pública, como se pode ver no texto abaixo, publicado no site Presseurop.

No início, a intenção era reconciliar os franceses. Pelo menos foi o que François Hollande prometeu durante a campanha eleitoral. Em vez disso, no seu primeiro ano no poder, colocou os seus compatriotas uns contra os outros, ao introduzir o “casamento para todos”, e reacendeu aquilo a que o historiador Emile Poulat chamou “a guerra das duas Franças”.

Desde que a França, a “filha mais velha da Igreja”, separou a Igreja primeiro da escola (em 1882) e depois do Estado (em 1905), existe uma guerra latente entre aqueles que justificam esse “laicismo”, evocando o “progresso” e a “modernidade”, e aqueles que veem nele um atentado contra a ordem social desejada por Deus.

Embora as “duas Franças” tenham sofrido inúmeras transformações, o conflito que divide a sociedade reacende-se a intervalos regulares – como agora, por conta da aprovação do casamento de homossexuais.

O país está em efervescência, desde que o governo apresentou esse projeto de lei. Em Paris e também no resto do país, os defensores da família tradicional organizam-se. A legalização da adoção de crianças por casais gays é particularmente atacada. Nos cartazes nos protestos, pode ler-se: “Papa + Maman, y a pas mieux pour un enfant” [Papai + mamãe, não há melhor para a criança].

Vários cidadãos que não vão à igreja juntaram-se à onda de protestos. A Igreja Católica e a sua vasta rede composta por escolas, paróquias e associações apoiaram ativamente o movimento. Os altos representantes do Islã e do judaísmo rejeitaram unanimemente o casamento de homossexuais. A oposição desencadeada pelo projeto de lei reúne igualmente uma geração de jovens franceses que, até agora, não tinham assumido compromissos políticos nem religiosos.

Os opositores partilham o mesmo receio: o de que, ao desviar-se do casamento tradicional e da família, a esquerda laica abandone um dos pilares da sociedade cristã ocidental. As promessas da ministra da Justiça, Christiane Taubira, para a qual o “casamento para todos” é o preâmbulo de uma “nova civilização”, inflamaram os receios dos opositores.

Observando à distância as origens do laicismo é possível compreender melhor a veemência e a ferocidade deste conflito em torno do casamento de homossexuais.

Em nenhuma outra parte da Europa, a religião foi expulsa da vida social de uma forma tão brutal como na França de finais do século XIX.

Inicialmente acreditou-se que, após um período de descristianização que teve um ponto alto cruel em 1793, a revolução seria seguida pelo regresso ao catolicismo. Os “pais do laicismo”, Jules Ferry e Léon Gambetta, eram tidos como espíritos esclarecidos.

Protestos inflamados em Paris
Protestos inflamados em Paris

A derrota da França na guerra de 1870 veio corroborar a convicção de ambos segundo a qual as gerações futuras deveriam receber uma educação secular. Em março de 1882, foi publicada uma lei que fez desaparecer o catecismo, a história da Bíblia e todas a referências às outras religiões dos manuais escolares. Desde então, o ensino religioso não está incluído no programa de nenhuma escola pública francesa.

As orações públicas foram banidas. Os símbolos cristãos estão proibidos em todos os edifícios públicos, como escolas, hospitais e tribunais. O direito ao divórcio foi (re)introduzido em 1884. Contudo, uma parte do país mostrou-se avesso à mudança.

Apesar da instauração de escolaridade obrigatória, em 1882, muitos franceses, em especial nas regiões rurais, recusaram-se a mandar os filhos para uma “escola sem Deus”.

Durante o primeiro semestre de 1906, verificaram-se confrontos sérios, no seguimento da aceleração da secularização das instituições. Em 1904, as congregações foram proibidas de lecionar, o que se traduziu no afastamento de milhares de religiosos.

A lei da separação entre a Igreja e o Estado foi aprovada em dezembro de 1905. Desde então, o Estado deixou de apoiar financeiramente as comunidades religiosas e de cobrar impostos em benefício das Igrejas.

Ironicamente, os jovens manifestantes que se opõem ao “casamento para todos” usam a boina frígia, um acessório que outrora era o símbolo da liberdade para os revolucionários e, portanto, para a França que defendia os direitos do homem, o progresso e a separação entre a Igreja e o Estado, contra o campo da restauração e do clericalismo.

São duas Franças em ação – e elas estão em guerra uma contra a outra.

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