A Fifa e os cambistas da Copa: uma relação delicada

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Começou no dia 12 de março a penúltima etapa de venda de ingressos para a Copa do Mundo e, mais uma vez, pairam dúvidas a respeito dos procedimentos da Fifa.

Teoricamente, só é possível comprar ingressos no site da entidade e de forma personalizada. Ou seja, o nome do usuário virá impresso em cada ingresso e só é permitido entrar no estádio com comprovação de identidade.

Esses procedimentos visam, em tese, impedir o mercado paralelo de ingressos ou mais especificamente a ação de cambistas. Não foi o que aconteceu durante a Copa das Confederações, na qual os ingressos também eram personalizados. Em todos as cidades em que houve jogos, ocorreu a ação de cambistas, vendendo ingressos a preços extorsivos e garantindo que, mesmo sendo personalizados, não seria necessário apresentar identidade para entrar no estádio.

Para a Copa do Mundo, a Fifa reforçou sua preocupação com o mercado paralelo, mas ao mesmo tempo abriu a possibilidade de ocorrer transferência dos ingressos, o que é uma porta escancarada para cambistas.

Surgiu agora a suspeita de que a entidade não só facilita a venda irregular de ingressos como se beneficia disso.

É o que afirma o jornalista escocês Andrew Jennings, que denunciou as negociatas de João Havelange com direitos de transmissão dos jogos da Copa — e que fizeram o cartola brasileiro tomar chá de sumiço.

Jennings vai lançar o livro “O jogo mais sujo ainda” (título provisório) em maio, no Brasil e na Inglaterra, com denúncias graves sobre a política de ingressos da Fifa. Segundo ele, 40% dos bilhetes “saem pela porta dos fundos” — ou seja, são desviados para empresas, agências e até pessoas físicas. E o motivo é simplesmente vender muito mais caro do que custam, gerando lucros para todos.

De que outra forma explicar a disponibilidade que algumas agências têm de ingressos? Basta entrar, por exemplo, no site inglês 2014brazilworldcuptickets.com para ver que ingresso não é problema, desde que se pague bem. O site oferece entradas para todos os jogos, inclusive a abertura (2 mil dólares) e a final (2,5 mil dólares). No tritickets.com há também abundância de ingressos, com preços ainda mais salgados e o aviso de que só em maio serão entregues. Um ingresso para Brasil e Croácia na Arena Corinthians sai pela bagatela de 4.065 dólares, mais 35 dólares de frete.

As agências de turismo também estão oferecendo o privilégio, algumas pelo menos. Muitas delas oferecem pacotes sem ingressos porque sabem que isso é ilegal. Mas outras, não. A Infinity Tours, também inglesa, garante que não vende ingressos no seu pacote, mas tem anunciado essa possibilidade de maneira velada — oferecendo, por exemplo, ingressos pela redes sociais, como o Linkedin.

Jennings tem convicção de que esses privilégios passam pela anuência e interesse da própria Fifa. Ele cita dois amigos de Blatter — os irmãos Jaime e Enrique Byron — que prosperam fazendo negociações com a Fifa e hoje vivem na Inglaterra administrando “uma enorme fatia das gigantescas operações da Copa do Mundo da FIFA”, segundo o que escreveu no livro. “Todos os ingressos para todo e qualquer jogo da Copa do Mundo são contabilizados pelos computadores de Jaime e Enrique”, diz Jennings.

Na verdade, a Fifa, assim como as instituições do futebol, é uma empresa privada, que não deve satisfação a ninguém. É dona do maior evento esportivo do mundo e, como diz Jennings, a única empresa que pratica o monopólio sobre seus produtos em todo o mundo.

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