A escritora, a Soda, a internet e a eleição

A história do blog falso da campanha de Serra e do vídeo de uma escritora americana

O blog retirado do ar pelo TRE

“Essa ainda não foi a eleição da Internet”. Essa foi a avaliação de uma pessoa que trabalhou na campanha do candidato do PT em São Paulo. Ela tinha um ponto, e muito bem defendido, sobre uma estratégia que se mostrou vitoriosa, de levar Haddad ao segundo turno partindo de pífios 3%. Com todo respeito, eu respondi que ela estava totalmente enganada. Totalmente. A internet nunca foi tão decisiva. Só aqui no Diário, os posts políticos geram conversa, discussão — e voto, em última análise. Desde o artigo O Atentado Contra Serra, de 2010, tem sido assim. Nós tivemos também uma experiência incrível com o relato sobre Celso Russomanno, cuja repercussão espantosa teve um forte impacto sobre sua candidatura. Mas isso é só aqui.

O aplicativo "Missão Impossível", da Soda Virtual

Há outros sinais eloquentes. O mais visível é o dinheiro que se gasta. Os dois maiores e mais ricos partidos do Brasil, PT e PSDB, nunca investiram tanto em sites, aplicativos etc. Muito desse material acabou não indo ao ar por causa do encaminhamento da campanha.

No desespero, a equipe de Serra partiu para o chute na canela e o dedo no olho. A empresa Soda Virtual, sediada em João Pessoa (PB), recebeu 531 mil reais para a “criação e inclusão de páginas na internet”, segundo o registro no TRE. Uma das barbaridades que perpetraram foi um blog chamado “Propostas Haddad 13”, com o mesmo padrão gráfico e logotipos da campanha petista. Ali estava dito que Haddad aumentaria a alíquota do IPTU, construiria 50 escolas de lata e recriaria a taxa do asfalto.

A Soda também criou uma “rede social” (www.souserra.com.br, fora do ar) e um game no Facebook, “Missão Impossível – Encontre uma Obra de Haddad em São Paulo”, suspenso por ordem da Justiça Eleitoral. O dono da Soda, Huayna Batista Tejo, sumiu desde que a situação se complicou. Em sua página no Facebook, Huayna (para quem se interessa, o nome significa “jovem” no dialeto inca) deixou um recado: “Factoides são criados sempre nessa politica do nosso país e a corda arrebenta sempre pro lado mais fraco… Cabe à justiça investigar os reais responsáveis e indenizar quem não tem culpa no cartório. O maior interessado em esclarecer tudo o que foi publicado sou eu”. Um amigo dele replicou: “Bom mesmo é ficar longe desses fdp!”

O efeito foi colateral: quem ainda tinha alguma dúvida sobre até onde Serra iria deixou de ter.

Nos Estados Unidos, um vídeo postado no YouTube está levantando um debate acalorado. A escritora e atriz Lena Dunham gravou depoimento declarando seu voto em Barack Obama e conclamando as jovens a fazer o mesmo — Obama e Mitt Romney disputam palmo a palmo essa fatia do eleitorado. Lena é autora de um seriado da HBO chamado Girls, espécie de versão mais esperta, pós adolescente e sem peruagem de Sex And The City, com diálogos ocasionalmente brilhantes. Ela sugere que a primeira vez das garotas seja com “um grande cara”, ou seja, Obama. Está se referindo ao primeiro voto, mas é óbvio que há uma conotação sexual.

Ela é simpática, gordinha, falante, inteligente. O vídeo bombou. E os conservadores voaram para cima das dobrinhas de seu pescoço. A revista National Review classificou a declaração de Lena como “totalmente apropriada para o governo que pensa que tudo com que as mulheres se importam é controle de natalidade e aborto”. A colunista de direita Ann Coulter, excelente frasista, bateu mais pesado: “Essa é a perfeita representação dois dois grupos que deveriam ser impedidos de votar: jovens e mulheres”.
O sucesso ou o fracasso do vídeo no YouTube de Lena Dunham podem ter um efeito nas eleições para presidente?

SIM.

Agora, seria engraçado imaginar esse vídeo feito pela coordenação do Serra. Quer dizer, melhor nem pensar nisso.

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