A deusa dos conservadores americanos

Ayn Rand dividia o mundo entre a elite e o resto. Conquistou assim os EUA

Rand glorificou o egoísmo

 

Se você quer entender os conservadores americanos, tem que conhecer Ayn Rand, escritora russa de origem judaica que fugiu da Revolução Comunista de 1917 e se instalou nos Estados Unidos. Ali ela morreria aos 77 anos, em 1982. Uma biografia recente de Rand tem um título que diz tudo: “A Deusa do Mercado”.

Rand voltou às manchetes recentemente nos Estados Unidos por causa de um de seus devotos: Paul Ryan, o companheiro de chapa de Mitt Romney nas eleições presidenciais. Num vídeo feito antes de ele ser escolhido por Romney, Ryan disse ter sido fundamentalmente inspirado pelas idéias de Ayn Rand. Num Natal, ele comprou vários exemplares do principal livro de Rand, lançado no Brasil com o título de “A Revolta de Atlas”, e distribuiu como presente.

Ryan é tido como um pensador entre os republicanos, e uma de suas missões foi dar algum lustro à chapa republicana, dado que Romney parece tão bronco quanto Ronald Reagan sem ter o charme hollywoodiano dele.

Como se viu, não funcionou.

O problema, para Ryan como candidato a vice, é que Rand era atéia. Os partidários de Obama exploraram isso. Então Ryan pediu que esquecessem o que dissera, e afirmou que sua inspiração, na verdade, era São Tomás de Aquino.

Licença para um hahaha básico.

Bem, o ateísmo é irrelevante na filosofia de Rand. O ponto central – e foi a ele que os conservadores se agarraram – é que o mundo é dividido entre a elite rica e os parasitas. A elite rica é uma minoria que empurra o mundo adiante, com sua criatividade incansável da qual deriva sua justificada fortuna. Parasitas somos todos nós, que sugamos o sangue dos melhores. É uma inversão curiosa do conceito consagrado pelo movimento Ocupe Wall Street: o 1% é glorificado e os 99% desprezados.

Rand é o ídolo maior dos integrantes do Tea Party, a direita da direita americana. Nas reuniões do Tea Party, são comuns cartazes em que aparece o nome “John Galt”. John Galt é o herói de A Revolta de Atlas, um romance filosófico que está sempre entre os mais vendidos nos Estados Unidos desde seu lançamento, em 1957.

Encontro do Tea Party: alusões ao Galt de Rand são frequentes

Galt representa o Atlas, ou melhor, a elite que leva o mundo nas costas. Galt, revoltado com as pressões dos parasitas por condições de vida melhores, decide fazer uma greve. Não só dele, mas de todos os seus iguais – o 1% santificado. A humanidade é tremendamente castigada pela insurreição comandada por Galt.

O culto a Rand na década de 1960 entre os americanos sofreu um golpe quando veio a público que ela mantinha um caso com um discípulo bem mais jovem. Ambos eram casados. Os traídos foram avisados e aceitaram o caso, mas não a sociedade americana.

Rand, no apogeu, foi uma figura presente nos mais prestigiados programas de entrevistas da tevê americana. No YouTube, o acervo de vídeos dela é enorme. Numa entrevista, perguntaram a ela qual deveria ser a posição dos Estados Unidos no Oriente Médio. Ela chamou os árabes de “selvagens”.

Rand defendeu o egoísmo como a virtude suprema da elite. Pense em você, em você e ainda em você. “Eu” era a palavra sagrada para ela. “Nós”, uma abominação. Ela levou a extremos um clássico pensamento de Adam Smith, o filósofo do livre mercado. Smith, em A Riqueza das Nações, de 1776, disse que o bem estar da comunidade depende do interesse pessoal do leiteiro, e do padeiro etc. Eles fazem o que fazem pensando em si mesmos, e a sociedade se beneficia disso.

Mas Adam Smith, na essência, não poderia ser mais diferente que Rand. Smith tinha um conceito de moral oposto ao da deusa da direita americana.

Um pensamento dele: “A disposição de admirar, e mesmo louvar, os ricos e os poderosos, e desprezar, ou pelo menos negligenciar pessoas de poucos recursos, é a maior e mais universal causa de corrupção dos nossos sentimentos morais”.

Isso é a antítese de Rand e de Galt – e do 1% americano que viu em ambos, criador e criatura, uma oportuna defesa intelectual para seus privilégios, sua ganância e seu egoísmo. As consequências disso estão aí: um país em acentuado declínio, atolado numa crise econômica, moral e social que leva a pensar que bem que Galt e seus congêneres poderiam mesmo entrar em greve e sair de cena – permanentemente.

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