Filosofia na vida prática: quanto mais temos, mais queremos. E mais nos frustramos. Por Paulo Nogueira

Nighthawks, de Hopper: a filsofia poderia consolar os deprimidos do quadro

O aristocrata romano Boécio (480–524) tinha tudo para ser feliz, segundo os parâmetros habituais. Era rico, poderoso, influente. Tinha uma inteligência excepcional: verteu para o latim toda a obra de Aristóteles e Platão. A decadente Roma, em sua época, estava sob o domínio bárbaro dos godos. Boécio era intensamente admirado pelo imperador godo, Teodorico. Dele ganhou uma função de destaque na administração pública. Tudo corria pelo melhor para Boécio até que a roda da fortuna se movimentou. Acusado de traição, algo que com o tempo se viu ser uma falácia criminosa, foi condenado à morte. Enfrentou suplícios antes da execução: por exemplo, uma correia de couro apertada em seu crânio. Boécio recebeu a marca dos condenados à morte: a letra grega Theta queimada na carne. Era assim que os presos destinados a morrer era distinguidos dos demais.

Do martírio de Boécio nasceu um entre os clássicos da literatura ocidental: o livro A Consolação da Filosofia, escrito no curto e tumultuado período entre a sentença e a morte. Tudo de que Boécio dispunha materialmente para escrever suas reflexões eram pequenas tábuas e estiletes. Isso lhe fora passado por amigos solidários. Mas ele tinha, acima de tudo, uma cultura e memória prodigiosas. Em seus dias, a elite intelectual costumava guardar na memória os textos clássicos, lidos em voz alta desde a infância e arquivados nos cérebros privilegiados como o de Boécio como uma espécie de “biblioteca invisível”. Foi com a ajuda dessa biblioteca nada convencional que Boécio escreveu um comovente, sublime, duradouro testemunho de como a filosofia pode ajudar as pessoas a enfrentar situações cruéis como a que ele experimentou.

Trata-se de um espetacular triunfo do espírito sobre a força, e isso logo foi reconhecido. A Consolação da Filosofia foi uma das três obras mais lidas na Idade Média, ao lado da Bíblia e de A Regra Monástica, de São Bento. Há, no Brasil, uma fina edição da Martins Fontes, na qual a tradução competente direta do latim se combina com um prefácio primoroso. Boécio cria, no livro, uma conversa entre ele, perturbado por sua queda, e uma musa, que representa a filosofia. Ele está prestes a morrer e no entanto tem uma espécie de renascimento espiritual nos diálogos com a musa.

A filosofia lhe mostra que os bens cuja perda ele tanto lamenta, das propriedades à vida mesma, se tem o brilho do vidro também tem sua fragilidade. O único bem que não nos pode ser tirado é aquilo que temos dentro de nós, uma “musculatura interior” que nos faz aceitar com graça e dignidade os reveses do destino. “A felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo sem queixas”, escreveu Boécio. Há em nós uma tendência deletéria à insatisfação que impede a felicidade. Mesmo quando a sorte nos é favorável achamos razão para queixas. Queremos mais, sempre mais, em apaixonadas manobras da ambição que terminam em frustração. Sem o controle das paixões, e a mais perversa delas é a ambição, simplesmente não existe chance de ser feliz. Foi o que ensinou Boécio.

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