A censura mal disfarçada a “Aquarius” é sinal dos tempos que virão. Por Mauro Donato


Em maio deste ano, o elenco do filme Aquarius estava em Cannes para exibição da película no festival homônimo e internacionalmente consagrado. Pouco antes da estréia, ainda no tapete vermelho, o diretor Kleber Mendonça Filho e mais Sônia Braga, Maeve Jinkings, Carla Ribas e Humberto Carrão pararam na porta e ergueram cartazes em protesto contra o golpe aplicado por Michel Temer e seus asseclas.

“Brasil não é mais uma democracia”, “Um golpe ocorreu no Brasil”, “Resistiremos” era o que estava grafado em francês e inglês para que o mundo atentasse ao que ocorria aqui nos tristes trópicos. O protesto repercutiu e estampou capas de vários jornais estrangeiros.

Agora a fatura chegou.

O Ministério da Justiça, sob a batuta de Alexandre de Moraes, classificou o filme como impróprio para menores de 18 anos. Motivo? “Situação sexual complexa.”

Diante do que vemos em novelas na televisão, classificar alguma coisa hoje em dia como situação sexual complexa é assombroso. Seria alguém transando com um ventilador ou, sei lá, uma árvore? Serguei estava no filme e não fomos avisados? Kid Bengala?

Segundo a Vitrine Filmes (distribuidora), o filme não traz violência e cenas de sexo só ocorrem em três momentos de Aquarius. Então, ‘wtf’?

Claro está que o intuito é prejudicar a obra, limitando seu público. Uma postura de retaliação meramente rancorosa, ou “situação emocional complexa”, como queiram.

O ‘projeto Temer’ foi desenhado sobre o ódio ao PT e aos avanços sociais conquistados nas últimas décadas. As reações virulentas encenadas na avenida Paulista ou em outros redutos escolhidos pela elite para suas ‘passeatas’ contra qualquer pessoa que trajasse vermelho ou ousasse divergir ao longo dos últimos dois anos dão a medida de como a direita recebe o contraditório.

Não é, portanto, de se espantar que a censura volte, também ela, travestida. Não proibiram o filme mas colocaram um filtro, entendeu? Assim como não precisaram de tanques de guerra para tomar o poder.

Em 1985 assisti ‘Je vous salue, Marie’ no Diretório Acadêmico da faculdade. Uma projeção clandestina e divulgada à boca pequena. O filme de Jean-Luc Godard era proibido e sua projeção era um ato subversivo. Estávamos de saída da ditadura e o país era, veja você, governado por alguém indiretamente escolhido: José Ribamar Sarney.

O primeiro depois da sequência de generais que terminara em João Figueiredo (aquele que preferia o odor dos cavalos ao do povo). Trinta e um anos depois, assistimos a esta amostra de autoritarismo repleta de coincidências desagradáveis. O consolo, se é que há, é analisar hoje quem é Godard e quem é Sarney.

A distribuidora Vitrine Filmes recorreu à Justiça solicitando a reclassificação do filme, mas o pedido foi indeferido ontem. Aquarius foi bem recebido em Cannes e vencedor na categoria ‘melhor filme’ no Festival de Cinema de Sydney. Por aqui, está sofrendo as sanções que todo regime anti-democrático impõe a seus críticos.

 

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