“Surrexit, non est hic”

Papai na redação da Folha nos anos 1970

Aqui vai mais um artigo de papai da coluna A Língua Nossa de Cada Dia, que ele publicou nos anos 1960 e 1970 na Folha. Agora, ele lança um olhar sobre o uso das vírgulas. Gosto especialmente das citações. Primeiro a de São Marcos em latim, língua com a qual papai tinha grande familiaridade, e depois a de Clarice Linspector no final do texto: para desrespeitar as regras, é preciso conhecê-las …

UM PORMENOR, A VÍRGULA

 

Surrexit, non est hic” foram as últimas paalavras com que, segundo São Marcos, a ressureição de Jesus Cristo foi anunciada às piedosas mulheres que lhe procuravam o corpo, no local onde tinha sido sepultado, para embalsamá-lo. É esse acontecimento que a Igreja comemora hoje, com grande solenidade, pois a Ressurreição constitui uma das pedras angulares da doutrina cristã.

Há gente que não sabe pontuar uma frase e, o que é pior, pensa que essa história de vírgulas, pontos finais, pontos de interrogação e de exclamação etc não tem a menor importância.

Observe-se de novo naquela frase da qual o cristianismo tira uma de suas maiores fontes de convicção: “Surrexit, non est hic”, ou seja, “Ressuscitou, não está aqui”. Bastaria uma mudança na posição da vírgula para pôr em dúvida todo o dogma da Ressurreição: “Surrexit non, est hic”, que se poderia traduzir por “Não ressuscitou, está aqui”… E se fizesse uma alteração um pouco mais refinada poderíamos ter “Surrexit? Non. Est hic”, ou “Ressuscitou? Nâo. Está aqui”.

Esse velhíssimo exemplo é aproveitado por muitos professores de Português não para alimentar polêmicas religiosas – totalmente sem sentido – mas para chamar a atenção de seus alunos para a importância da correta colocação da vírgula. Muitas pessoas não têm a menor noção do assunto. Lendo-se o que escrevem, tem-se a impressão de que as vírgulas são colocadas no texto a olho, como se jogadas sem nenhum critério sobre o papel, para caírem onde Deus é servido.

A vírgula é um sinal de pontuação que indica uma pequena pausa e existem regras para o seu emprego. Qualquer gramática as registra e os interessados não terão dificuldades em aprendê-las, contanto que se convençam da necessidade disso. Apesar dessas regras, como é natural, sobra ainda um vasto campo em que o emprego da vírgula é inteiramente subjetivo, dependendo das intenções estilísticas do autor e até de circunstâncias alheias à arte de escrever. Há quem afirme, por exemplo, que uma pessoa que tem dificuldades respiratórias virgula com mais frequência que as sãs. Um período como “Ontem ao entardecer, eu inesperadamente encontrei o João, que sem dizer nada fugiu de mim” poderia apresentar-se recheado com mais vírgulas, assim: “Ontem, ao entardecer, eu, inesperadamente, encontrei o João, que, sem dizer nada, fugiu de mim” ou porque o autor, por uma razão qualquer, quisesse com maior número de pausas ressaltar alguma ideia, ou por amor a um estilo mais sincopado.

De qualquer forma, é importante saber quando e onde é obrigatório o uso de vírgulas, mesmo que se pretenda inovar esse terreno e desobedecer à praxe. Valha nesse ponto um conselho da escritora Clarice Lispector: “Eu queria dizer a você e a todos os que estão começando a escrever que, para não respeitar as regras gramaticais, é essencial conhecê-las.”

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